Regência Nominal e Regência Verbal
O uso lingüístico da Regência nas cartas dos leitores das Revistas Veja e Capricho
Luís Cláudio Mota Mascarenhas
RESUMO: O presente artigo visa a mostrar que o uso lingüístico da regência verbal e nominal nas cartas dos leitores para as Revistas Veja e Capricho apresenta traços da oralidade.
ABSTRACT: The present article aims at to show that the linguistic use of the verbal and nominal regency in the letters of the readers for the Magazine Veja and Capricho, presents traces of the orality.
PALAVRAS CHAVES: Regência, variação lingüística, gramática, língua.
WORDS KEYS: Regency, linguistic, grammatical variation, language.
Já se disse várias vezes que o português brasileiro é uma língua uniforme. Essa uniformidade era (e é) afirmada por uma grande parcela de gramáticos tradicionalistas que acredita na homogeneidade de uma língua. Diante disso, sempre se questionou se a língua falada é a mesma estudada, visto que a maioria dos saberes lingüísticos sistematizados e elaborados pela escola sempre deturpa o real significado de se ensinar Língua Materna. Assim, as informações acima citadas podem contribuir muito bem para a construção limitada de um determinado fenômeno lingüístico, tornando a modalidade culta como única e soberana, impossibilitando que falantes adaptem-se de forma natural a diferentes contextos de fala.
Partindo desse pressuposto, é necessário mostrar os fenômenos pelos quais a língua perpassa, para depois focalizar o uso da regência, tanto na língua escrita como na falada. Todas as línguas, como dizem Basso e Ilari (2006), estão sujeitas à variação, haja vista que elas possuem uma história interna que diz respeito às mudanças ocorridas ao longo de sua gramática e uma história externa que mostra de forma sucinta a sua evolução em concomitância com as relações sociais e com determinadas comunidades lingüísticas. Diante disso, Bagno (2001) diz que a escrita é o reflexo da fala, pois escrevemos da mesma forma que pronunciamos as palavras mediante a gramaticalizações e a lexicalizações que muito contribuem para a formação de novas palavras, novos significados e construções frasais que dinamizarão a comunicação em sociedade.
Partindo dessa discussão, pergunta-se: Como as Gramáticas Normativa e Descritiva concebem e conceituam lingüisticamente o uso da regência no Português Brasileiro? Para mediar essa discussão, torna-se necessário definir os objetivos destas gramáticas acima citadas. Para a Gramática Normativa, o falante só terá condições de fazer o bom uso da língua escrita e falada, se o mesmo tiver conhecimento das regras estabelecidas, ao contrário da Gramática Descritiva, que além de trazer um conjunto de regras em doses homeopáticas, procura mostrar como a língua realmente funciona, afirmando que para o falante fazer o bom uso dela (a língua) é necessário desenvolver os hábitos de leituralização e escrita. Assim, verifica-se que a Gramática Normativa e a Gramática Descritiva têm concepções diferentes de se ensinar língua.
Para a Gramática Normativa, é na regência que as palavras de um período frasal tornam-se interdependentes, isto é, relacionam-se para formar gramaticalmente um todo significativo processando uma relação entre duas palavras, sendo que uma delas servirá de complemento para a outra na mesma sentença e que suas relações podem ser indicadas:
(1) Pela ordem que se dispõem os termos na oração;
(2) Pelas preposições cuja função é justamente a de ligar palavras estabelecendo entre elas um laço de dependência;
(3) Pelas conjunções subordinativas, quando se trata de um período composto.
Observa-se que um simples conteúdo lingüístico está carregado de prescrições normalistas, uma vez que essas regras não são e (não serão) usadas no cotidiano e que por vezes atrapalham a logicidade de se compreender que a palavra dependente denominar-se-á regente e o termo a ele subordinado de regido, como bem se explicita abaixo e que tanto uma como a outra explica o seu uso:
(4) Valdomiro Diniz visou o alvo certo.
(5) Na luta pela sobrevivência, Artur visou a um emprego melhor.
Tanto a GN quanto a GD explicam que a exemplificação em (4) o verbo visar exige sistematicamente um complemento sem a introdução de uma preposição, ao contrário de (5) cujo verbo da sentença oracional exigirá a preposição antes do complemento. As duas gramáticas estão de acordo quanto a construção (4), visto que, para a frase ser construída, o falante sempre usará a preposição com o intuito de se estabelecer o sentido da mesma, ao contrário de (5), na qual a GN sustenta a necessidade de seu uso, enquanto a GD afirma que o uso da preposição antes do complemento nunca será executado pelo falante, tanto letrado quanto iletrado, mas não explicou o porquê de isso acontecer. Assim, quando o termo numa oração regente for o nome, tratar-se-á de uma regência nominal e quando acontecer o contrário, tratar-se-á de uma regência verbal, como se pode observar em (6) e (7):
(6) Eles eram fiéis ao amigo Lula.
(7) Os Jogadores da Seleção Brasileira necessitavam de apoio.
Geralmente, quando a GN focaliza o uso da Regência no seu corpo conteudístico, ela traz alguns verbos que são usados no uso popular e que estão em desacordo com a norma culta, que também é uma variação, visto que, para Bagno (2001) e Possenti (2006), o que importa é o estabelecimento da comunicação, já que quem diz e entende frases é porque conhece a estrutura de uma língua e essa lista de verbos, de acordo com a GD, jamais deverá ser levada em conta pelo simples fato de que os mesmos podem ser empregados em diferentes situações de comunicação. Esse ranço lingüístico de considerar o que é popular como desvio, dá-se notoriamente através da história da própria, gramática que significa a arte de escrever bem, e que contribui para a construção de um equívoco: a separação da modalidade escrita da modalidade falada. Assim, como bem profere Perini (2004), a maioria dos falantes tende a pensar que a língua de verdade, a correta, é a escrita e que a fala é uma versão facilitada e cheia de erros, como se pode verificar nas construções frasais abaixo retiradas de uma revista que tem como público, alvo jovens adolescentes e que para a GN, seria erro, ao contrário da GD que nada afirmaria, e sim explicaria:
(8) João namorava com Antonia e o fruto desta relação proporcionou a geração de um filho que muito acrescentou aos dois.
(9) A reportagem de capa muito enfatizou que a maioria dos jovens preferem mais estudar que trabalhar.
Sabe-se que a fala de uma falante pode influenciar a de um outro e esses novos hábitos lingüísticos passam a fazer parte do cotidiano destes indivíduos envolvidos no processo comunicativo e que por meio de uma interação social, tendem a contribuir de forma positiva, mesmo estando certos ou errados. O que acontece é que, tanto na escrita quanto na oralidade, essas construções são estabelecidas, uma vez que é muito mais fácil se pronunciar frases do tipo (8) e (9) do que as sentenças abaixo:
(10) João namorava Antonia e o fruto dessa relação proporcionou a geração de um filho que muito acrescentou aos dois.
(11) A reportagem de capa muito enfatizou que a maioria dos jovens preferem estudar a trabalhar.
A GD, ao contrário da GN, é muito mais lógica e objetiva quando pretende procura explicar algum fato ou fenômeno lingüístico sem proporcionar uma derrama de regras, que mais atrapalha do que ajuda. Um outro fator a se observar é que existem algumas construções regenciais que são faladas por jovens, alguns adultos e rejeitadas por idosos, ocorrendo, assim, uma variação por faixa etária e que na fala ganha dimensões abstratas que por sua vez, concretiza-se por meio da escrita:
(12) Adorei a reportagem de capa sobre a importância do diário. E quando alguém fala para mim escrever alguma coisa, fico lisonjeada e feliz.
Isso normalmente acontece quando jovens, por meio de um preconceito arcaico, tem certa insegurança ao empregar o pronome de primeira pessoa do singular eu, acreditando que tal colocação esteja fugindo aos padrões formais e vêem no mim uma alternativa ou modismo para que seja usado, não levando em conta o valor semântico da preposição empregada. Diante disso, o que se tem observado é que este tipo de construção está muito freqüente tanto na escrita quanto na oralidade de uma grande parcela de falantes letrados e iletrados de diferentes classes sociais. Assim na sentença (12) como bem explicam as duas gramáticas utilizadas para este estudo, o que se observa é que a preposição deveria reger o verbo no infinitivo, o que proporcionará a construção do tipo:
(13) Adorei a reportagem de capa sobre a importância do diário. E quando alguém fala para eu escrever alguma coisa, fico lisonjeada e feliz.
Uma outra sentença proferida pela grande maioria dos falantes é o uso do para, no e nem em substituição de ao e/ou à, visto que tanto a GN quanto a GD explicam que os verbos dessas orações pedem complemento preposicionado quando significa estar presente a, pois no Português Coloquial Brasileiro o verbo constrói-se em tal acepção como objeto direto, sendo pronunciados e escritos de tal forma que seu uso já se tornou comum, como se pode observar abaixo:
(14) Agradeço a Revista Veja pelo resumo de Diamante de Sangue. Ao assistir ao filme pude perceber que ele representa a realidade de algumas nações africanas.
(15) A revista foi feliz quando apontou e mostrou prova sobre a máfia dos fiscais e isso permitiu que a Polícia Federal fosse para Campinas para apurar as denuncias de corrupção.
(16) A matéria de Superinteressante sobre museus e suas informações, contribuíram para minha ida para o MASP.
As sentenças (15) e (16) mostram o emprego da preposição para, neste caso, observa-se que tal uso processa-se tanto na fala quanto na escrita e que já se tornou consagrado entre escritores modernos, sendo que seu uso padrão sempre continua sendo fiel à preposição a como afirma a GN e GD. Por outro lado, a sentença (14) traz uma construção oracional, cuja poucos falantes apropriam-se dela nos atos de fala, pois a GN e a GD afirmam que o verbo pede um complemento preposicionado, sendo falada por poucos falantes do Português Brasileiro. Assim, a Construção de (15) e (16) para a GN está incorreta quanto ao emprego da preposição, visto que a GD não condena, procura explicar o acontecimento do fenômeno, mas, por traz destas explicações, existem uma pequena quantidade de regras.
Assim, estudar o uso lingüístico da Regência no Português escrito e falado foi substancial para que novos paradigmas fossem elaborados para se acabar com o mito da uniformidade que nunca existiu, visto que o primordial seria se as salas de aulas se transformassem em laboratórios de aprendizagem para a vida e, assim, a escola, não só formaria pesquisadores em sua própria língua, como também usuários competentes dentro do processo comunicativo. Partindo dessa premissa, trabalhar com a Gramática Normativa e a Gramática Descritiva, possibilitou a construção de uma nova perspectiva de se ensinar língua, gramática e análise lingüística e verificar que tanto uma quanto a outra trabalham as regras sobre perspectivas diferenciadas. Por fim, é bom salientar que a gramática deverá se transformar num manual para consulta para aquisição de hábitos lingüísticos comunicativos.
REFERÊNCIAS
BAGNO, Marcos. Português ou brasileiro? um convite à pesquisa. 2 ed. São Paulo: Parábola, 2001.
BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. 37 ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2005.
CAPRICHO. São Paulo. Ed. Globo, n. 5, 12 de maio 1998. 12p.
ILARI, Rodolfo & BASSO, Renato. O português da gente: a língua que estudamos a língua que falamos. São Paulo: Contexto, 2006.
PERINI, Mário A. A língua do Brasil amanha e outros mistérios. São Paulo: Parábola, 2004.
____________. Sofrendo a gramática. São Paulo: Ática, 1997.
POSSENTI, Sírio. Por que (não) ensinar gramática na escola. Campinas, SP: Mercado das Letras, 2006.
TERRA, Ernani. Curso prático de gramática. São Paulo: Scipione, 1994.
VEJA. São Paulo. Ed. Abril, n. 131, 25 de set. 2006. 27p.

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